sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Amai os vossos inimigos.

A propósito do quarto centenário desse indomável orador (apesar de alguns abanões da Inquisição) que foi o Padre António Vieira (como lembrou, e bem, a colega Pipa) e porque hoje é a primeira sexta-feira da Quaresma, aqui deixo, para reflexão, o início do
Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma (1644):

Diligite inimicos vestros.

I
Temos hoje em controvérsia os dois mais poderosos afectos, e os dois mais perigosos da vontade humana. Tão poderosos que, se a vontade o vence, é senhora; tão perigosos que, se eles vencem a vontade, é escrava. E que dois afectos são estes? Amor e ódio. O amor tem por objecto o bem, para o abraçar; o ódio tem por objecto o mal, para o fugir; e este é o poder universal, que se estende sem limite a quanto tem o mundo. Mas, como o mal muitas vezes anda bem trajado, e o bem, pelo contrário, mal vestido, daqui vem que, enganada a vontade com as aparências, facilmente ama o mal, como se fora bem, e aborrece o bem, como se fora mal: e aqui está o perigo. Os antigos diziam: amai a quem vos ama, e aborrecei a quem vos aborrece, isto é: querei bem a quem vos quer bem, e querei mal a quem vos quer mal. Mas este mesmo ditame, ainda hoje tão seguido, posto que parece fundado em igualdade e justiça, é o maior e mais perigoso erro que a Sabedoria divina veio alumiar e reformar ao mundo. Neste Evangelho nos manda Cristo amar aos inimigos, e em outro nos manda aborrecer os amigos; neste nos manda amar aos que nos têm ódio, em outro nos manda ter ódio aos que nos amam; e sendo o mesmo legislador divino o autor destes dois preceitos tão encontrados, daqui se deve persuadir a nossa pouca capacidade, que nem sabemos o que é amor, nem sabemos o que é ódio; nem sabemos amar, nem sabemos aborrecer; nem sabemos querer bem, nem sabemos querer mal. Engana-nos o mal com aparências de bem, e leva-nos o amor; engana-nos o bem com aparências de mal, e mete-nos no coração o ódio. E que fará a triste vontade enganada assim, e cativa? O desengano destes dois erros é o que eu determino pregar hoje, e ensinar, não às más, senão às boas vontades, como hão-de saber amar, e como hão-de saber aborrecer. É matéria em que, depois de disputada a controvérsia, vos hei-de descobrir um admirável segredo. Ajudai-me a pedir a graça. Ave Maria.

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